terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Digam ao Mundo o que Fazem...

Já que estou a trabalhar no turno da noite (que aparentemente se perspectiva calmo), aproveitei para ler um artigo que andava por aqui esquecido no aglomerado de papéis e revistas… Intitula-se: Digam ao Mundo o que é que fazem! Direccionado obviamente para a profissão da enfermagem, este artigo deixou-me altamente transtornada, diria mesmo… perplexa…!
Vou deixar aqui dois excertos que acho de extrema importância que sejam lidos por enfermeiros, médicos e outros membros da equipa multidisciplinar.

“Raramente se dá às enfermeiras crédito para confiar no seu próprio conhecimento e capacidades de ajuizar. Muitas pessoas crêem que todos nos cuidados de saúde – incluindo a enfermeira – seguem as ordens do médico”.

Não sei não, mas cá para mim as pessoas devem acreditar que existe uma espécie de linha invisível entre o cérebro do médico e o cérebro da enfermeira, e depois é tudo simples: a enfermeira actua consoante o que lhe é transmitido telepaticamente pelo médico… (Ah é verdade, além das cadeiras normais na faculdade aconselho vivamente os meus colegas a fazerem parapsicologia para se poderem consagrar médiums…)!


“Muitas enfermeiras dizem que receiam irritar os médicos e, por isso, não transmitem a sua opinião ou falam acerca do seu trabalho. Algumas vezes os médicos actuam de forma muito agressiva para silenciar as enfermeiras e pô-las no seu lugar. Outras vezes as enfermeiras silenciam-se a si próprias quando os médicos não têm razão de queixa ou podem ser um elemento de apoio”

Vamos lá por partes: mas passámos 4 anos das nossas vidas a levar com teorias da “treta”, com livros, práticas, exames, trabalhos, etc., para chegarmos a um hospital e termos medo de irritar um médico? Vamos deixar que nos encostem a um canto quando somos nós que estamos 24 horas dos nossos dias perto dos doentes? Vamos silenciar-nos perante um médico que tem connosco atitudes agressivas e abusivas? Diria mesmo que a Florence Nightingale deve andar às voltas no caixão…!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

"É fácil tornar-se uma criança-soldado mas é muito mais difícil recuperar a sua humanidade"

Fui ontem ver o filme mais “brilhante” dos últimos tempos: Blood Diamond! Um filme extraordinário que conjuga o que há de melhor no divertimento com percepção.
Tendo como pano de fundo o caos e a guerra civil que assolou a Serra Leoa nos anos 90, "Diamante de Sangue" é a história de Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um ex-mercenário do Zimbabué, e de Solomon Vandy (Djimon Hounsou), um pescador da tribo Mende. Ambos são africanos, mas tanto a sua história de vida como as circunstâncias em que vivem não podem ser mais diferentes do que são até que os seus destinos se unem numa luta comum pela recuperação de um raro diamante rosa, uma pedra preciosa que tanto pode transformar uma vida como ditar o seu fim.

Blood Diamond

Ao longo do filme somos deparados com diversas crianças soldado. Estas são usadas como mensageiras, espias e escravas sexuais dos grupos armados. Em Serra Leoa, a Frente Unida Revolucionária (RUF) fundada por Foday Sankoh tinha por hábito drogar as crianças-soldado. Nos nossos dias, a pobreza, a propaganda e os interesses ideológicos continuam a provocar o envolvimento de crianças em vários conflitos. A África e a Ásia são os continentes mais atingidos por este problema. Os actuais conflitos no Afeganistão, Filipinas, Indonésia, Birmânia, Sudão e Colômbia são os mais graves. No entanto, outros países recrutam crianças para conflitos armados, na maioria dos casos guerras civis ou de guerrilha. Aos olhos dos grupos armados, as crianças são soldados baratos e obedientes.
A maioria das crianças-soldado são raptadas de suas casas. Vivem em meios pobres e marcados pelo analfabetismo, sendo, muitas vezes, de zonas rurais. Aquelas que se voluntariam são guiadas pelo desejo de se libertarem da pobreza e fazerem parte de um grupo político e ideológico.

«Pela primeira vez, alguns Estados comprometem-se solenemente a aplicar e respeitar os princípios da luta contra a utilização e recrutamento de crianças em conflitos armados», afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Philippe Douste-Blazy, no encerramento da conferência internacional «Libertemos as crianças da guerra», que segunda-feira começou em Paris.
Organizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela França, a conferência contou com perto de 300 participantes de governos, organizações não governamentais (ONG) e instituições internacionais, bem como com o eloquente testemunho de uma antiga criança soldado da Serra Leoa, Ishmael Beah.
Calcula-se que existam actualmente pelo menos 250.000 rapazes e raparigas soldados no mundo, essencialmente em África, mas também na Ásia e América (no Haiti e Colômbia).
Entre os signatários dos «Compromissos de Paris» encontram-se 10 dos 12 países onde, segundo a ONU, existem crianças soldados: Uganda, República Democrática do Congo, Chade, Sudão, Burundi, Somália, Sri Lanka, Nepal e Colômbia. Os outros dois, Birmânia e Filipinas, não participaram na reunião.
Os países da União Europeia e outros doadores como a Suíça e o Japão subscreveram os «compromissos», o que não aconteceu com os Estados Unidos que não esteve presente na conferência.
Embora sem valor jurídico vinculativo, os «compromissos» retomam e conferem peso político aos designados «Princípios de Paris» apresentados hoje e que actualizam os «Princípios do Cabo» adoptados por ONG em 1997 numa reunião naquela cidade sul-africana, assentando numa definição mais estrita da criança soldado.
Os «Princípios de Paris» servirão de base para a elaboração de programas de protecção, libertação e reinserção «duradoura» das crianças soldados, através da prevenção do recrutamento de menores e elegendo como prioridade os casos de raparigas, cuja proporção atinge em certos casos 40 por cento, segundo dados difundidos na conferência.
Nos «compromissos», os países prometem combater a «impunidade» de autores de recrutamento ou utilização ilegal de menores e «investigar e perseguir» essas pessoas, opondo-se à amnistia destes crimes nos acordos de paz.
Segundo os documentos de Paris, a libertação das crianças não deverá estar sujeita a condições e as crianças soldados acusadas de crimes devem ser consideradas «em primeiro lugar como vítimas e violação do direito internacional e não apenas como presumíveis culpados».
Os menores que fujam para outro país para escapar ao recrutamento ilegal devem ter direito de asilo, defendem.
A conferência «Libertemos as crianças da guerra» decorreu tendo por pano de fundo os preparativos para o primeiro julgamento no Tribunal Penal Internacional (TPI) de um acusado de recrutar menores de 15 anos, bem como de crimes de guerra e contra a humanidade, o líder rebelde da RDCongo Thomas Lubaga Dyilo.

In Diário Digital / Lusa (6 de Fevereiro de 2007)

Calcula-se que, em 2006, 250 mil crianças combateram em diversos conflitos armados!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas?»

No dia 11 de Fevereiro, os portugueses vão votar a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas de gestação. Uma coisa é ser a favor ou contra o aborto. Outra coisa é ser a favor ou contra a descriminalização do aborto.
O aborto clandestino é uma realidade dos nossos dias à qual não podemos fechar os olhos. São muitas as mulheres que têm sido sujeitas a julgamento e cuja vida pessoal tem sido exposta de forma implacável, são muitas mais aquelas que têm sido empurradas para praticar o aborto na única situação possível – a clandestina - em condições deploráveis que afectam a sua saúde e em muitos casos põem em causa a sua própria vida. Segundo a Direcção geral de Saúde, em 2003, cerca de três jovens por dia recorrerem aos hospitais portugueses devido a um aborto clandestino. A luta pela despenalização do aborto, possuindo um valor e urgência próprias, é indissociável da garantia da protecção da função social da maternidade e paternidade; da implementação dos serviços de saúde e de uma adequada rede de consultas de planeamento familiar; e da implementação da educação sexual nas escolas. O Aborto clandestino deve ser considerado um problema social e político.
Votar «Sim» é:
• O único voto que afirma a urgência de pôr fim às investigações, aos julgamentos e condenações de mulheres e aos riscos para a sua saúde que circuitos clandestinos implicam para sucessivas gerações, particularmente aquelas com menos recursos económicos;
• O único voto que representa o respeito pelas diversas opções presentes na sociedade portuguesa, já que a existência de uma lei despenalizadora não afrontará a consciência individual de cada um, nem obrigará nenhuma mulher a tomar decisões contra a sua vontade;
• Reconhecer que a clandestinidade da prática do aborto alimenta a sua total liberalização: pratica-se sem qualquer garantia de respeito pela saúde das mulheres, sem aconselhamento em matéria de planeamento familiar e alimenta um negócio vergonhosamente lucrativo;
• Reconhecer que o aborto clandestino é uma realidade que tem nefastas consequências para a saúde das mulheres e que a sua criminalização nunca dissuadiu, nem dissuadirá, as mulheres de o praticarem.

Portanto, dia 11 de Fevereiro, eu voto SIM!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Educação: Rígida ou Liberal?

A criança deve ser considerada como um ser em formação, um futuro homem ou mulher, que necessita de cuidados centrados em si porque é nas suas mãos que repousa o futuro do mundo de amanhã. As crianças são o futuro da humanidade e a sua educação depende dos adultos que devem pensar nesta faceta para inculcar valores e ideias claras para que o futuro corresponda aos planos de uma humanidade inteira.
Vivemos num mundo em que tudo traz instruções. Todas as coisas são acompanhadas de explicações, de formulários, de guias. No entanto, no que concerne à educação de uma criança os pais confrontam-se com a indecisão: ninguém os orienta ou dá receitas! Educar uma criança faz-se com bastante esforço. Há algumas gerações atrás esta problemática era vivida de uma forma simplificada: tudo parecia inequívoco, os gestos e as palavras não estavam constantemente carregados de dúvidas e de preocupações com o possível impacto futuro de determinada forma de agir com uma criança.
Desde o nascimento de uma criança que os pais devem impor regras e limites. No entanto, este tornou-se um dos pontos mais frágeis na educação de um novo ser humano. A Ausência dos pais na vida da criança, em virtude da excessiva carga horária dedicada ao trabalho levou à transição do papel de educador para as instituições educacionais (governamentais ou privadas). Esta necessidade gera no seio da família um sentimento de culpa que, para compensar tal circunstância, acabam sendo permissivos em demasia com os seus filhos impedindo, por conseguinte, momentos propícios à educação e indução de valores essenciais que devem ser incutidos.

Outra condição a ter em conta na educação de uma criança é os medos sentidos pelos pais em relação ao trauma do filho caso adoptem uma forma de educação mais energética. É necessária a consciência de que para educar é necessário esforço, dedicação, perseverança e paciência…
Para educar é necessário arregaçar as mangas e assumir o papel de orientador, de guia e de educador. Os pais devem envolver-se desde cedo neste importante processo e determinante na vida do ser humano.
Um dos pontos cruciais a ter em conta durante todo este processo é que os pais saibam colocar regras e impor limites de uma forma contínua. Aprender a dizer «não» é importante para a vida dos educadores para que a educação não se torne um processo demasiado liberal que leve à anarquia da relação educador-educando.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Um olhar mais além...

U m olhar mais além...A pediatria, nos dias que correm, surge como uma especialidade em constante evolução e desenvolvimento. Comparando com alguns anos atrás, denota-se uma enorme diferença a nível dos cuidados prestados, proximidade com a criança e, especialmente, a nível da proximidade e relação que se estabelece com a família da criança! Enquanto que alguns anos atrás os pais eram impossibilitados de ficar com a criança 24 horas por dia, hoje, na maioria dos serviços de pediatria, o pai ou mãe ou até outro familiar da criança pode ficar com esta nas 24 horas. Penso que, a nível pediátrico (e tendo em conta a fragilidade da criança), este foi um dos passos mais importantes para a evolução do internamento em pediatria relativamente aos outros internamentos de adultos. A criança acaba por se sentir mais acompanhada e vivenciar todo o processo de internamento de forma mais serena.Trabalhar em pediatria, para mim, é um previlégio! Há uns tempos atrás, tive o prazer de conhecer uma criança de 8 anos que me tocou especialmente. Tinhamos vários assuntos em comum (especialmente filmes) o que nos fez estabelecer uma relação engraçada. O que é certo, é que no momento que lhe disse que ia ter alta e podia ir para casa ele olhou-me e disse: mas eu não quero ir para casa, quero cá ficar mais uns dias". Os meus ouvidos pareciam não acreditar no que estavam a ouvir! E ele, olhando-me atentamente reforçou: Eu gosto de estar cá, isto é muito fixe!". E esta! pensei eu... enquanto os livro falam e falam do transtorno psicológico de um internamento hospitalar para uma criança, jamais li alguma coisa sobre o "querer ficar mais dias internado"... acho que os autores têm esquecido este assunto!Parece incrível, mas estas situações acontecem... e posso confessar-vos que senti uma enorme gratificação, porque conseguimos (toda a equipa) tornar este internamento especial e diminuir a ansiedade e qualquer tipo de transtornos que a ele podia estar associado...

O primeiro passo para a grande caminhada!


Sou enfermeira numa unidade de pediatria vai para 2 anos. Ao longo desta minha caminhada, tenho acompanhado diversas situações: boas e más, caricatas, maravilhosas e mesmo surrealistas, situações essas que gostava de compartilhar convosco...
O meu Mundo são as crianças e é para elas que eu vivo, por elas que respiro e com elas que riu, choro e, mesmo, aprendo!
Não há nada no Mundo mais maravilhoso que um sorriso de uma criança e mais gratificante que um simples abraço...